Médicos relatam violência em UPAs e centros de saúde de BH

Médicos e demais servidores protestaram hoje contra a insegurança causada pela retirada dos agentes da Guarda Municipal das unidades

“Só queremos trabalhar sem apanhar”, disse a médica clínica geral, Raquel Felizardo que trabalha há 9 anos na UPA Nordeste, no bairro São Paulo, em Belo Horizonte. Ela e mais 7 profissionais vestidos com roupas pretas paralisaram as atividades na unidade nesta terça-feira (18). Somente casos de emergência foram atendidos. Os médicos e demais servidores protestaram contra a insegurança causada, segundo a categoria, pela retirada dos agentes da guarda municipal das unidades de saúde. “Depois que mudamos de endereço, há 1 ano, a situação piorou. Este local é mais perigoso e nosso problema maior é que não temos uma portaria segura. Depois que o prefeito tirou os guardas municipais, nossos porteiros ficam vulneráveis”, disse Raquel.
 Na semana passada, de acordo com o Sindicato dos médicos de Minas Gerais, houve registros de agressões físicas e verbais aos médicos da upa todos os dias da semana. Em outro levantamento, feito em parceria com o Sindicato dos Servidores Públicos de Belo Horizonte (Sindibel) e Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-mg), aponta que, ate o momento, em 2017, já foram registrados 50 ocorrências de violência aos centros de saúde da capital. “Todos os dias eu sofro agressão verbal, semana passada, uma mulher que exigia atestado de comparecimento para um parente que nem estava na unidade, colocou o dedo no meu rosto, achei que ia me bater”, disse uma profissional que faz a triagem dos pacientes. Um pediatra da unidade, na última sexta-feira, levou um soco no rosto de um homem por causa de atestado. O médico chegou a registrar boletim de ocorrência e segundo os colegas, ele não vai voltar a atender no local.
A enfermeira que pediu para não ser identificada, disse que há 2 anos vive um pesadelo. “Entro com medo e saio com medo. Sou agredida verbalmente todos os dias. As pessoas não entendem que estamos trabalhando, saio da minha casa 4h da manhã, deixo minha família para trás e chego aqui e só recebo desacato. A prefeitura podia investir nas upas e centros de saúde”, conta.
Ainda segundo a médica Raquel Felizardo, os médicos da upa atendem cerca de 7 pacientes por hora e o recomendado pelo Conselho Regional de Medicina é de 3 pacientes por hora. “No último mês atendemos 5 mil atendimentos, antes era 3 mil. Aumentou o número de atendimentos e não o número de profissionais. Isso tudo complica nossos atendimentos e deixa os usuários mais descontrolados por causa da lentidão”, disse. Raquel nunca foi agredida fisicamente, mas todos os dias sofre ameaças. “Sofro desacato várias vezes ao dia, saio de casa apreensiva com o que vou receber aqui dentro. Só queremos trabalhar sem apanhar”, lamenta. Raquel também pontua outros problemas que os profissionais enfrentam na Upa. “O maior deles é a violência, mas sofremos com problemas estruturais. Falta medicamento todos os dias, cada dia é um. Hoje por exemplo o Idrocortizona para asma.Precisamos oferecer um similar para o paciente ou tentar a transferência dele para outra unidade”, explica.
Outros colegas de profissão da Raquel disseram que além do medicamento, falta lençóis, aparelho de glicemia, sabão, papel e computadores na upa. “Temos um computador para raio X que agora é eletrônico. O pediatra que fica no segundo andar da unidade precisa descer para analisar o exame. As pessoas veem os médicos andando e acham que eles estão atoas, mas não é o caso”, explica um médico que pediu para não ser identificado. Uma grande foi instalada entre a sala de espera e os consultórios. Mas segundo os profissionais ela já não impede a invasão dos pacientes. “Precisamos aumentar esta grade, pois os pacientes não respeitam nossos porteiros e pulam a grade para entrar nos consultórios”, disse um porteiro.
 E não é só os servidores da saúde da UPA Nordeste que sofrem com a violência,segundo a diretora saúde Sindibel, Cleide Donária, há um mês um médico e uma enfermeira do Centro de Saúde do bairro Mariano de Abreu, região leste de Belo Horizonte, foram assaltados. “Bandidos invadiram o centro de saúde armados e levaram carros e bolsas do médico e da enfermeira à luz do dia”, disse.
Ela contou também que no Centro de Saúde Jardim Alvorada, região da Pampulha, um médico ficou refém durante 4 anos. “Um paciente ficou por 4 horas com a arma na cabeça do médico, ele queria atestado e receita médica para um medicamento que um parente. Por sorte, tudo foi resolvido sem que acontecesse uma tragédia”, conta. Outro caso foi na UPA Barreiro, semana passada, uma enfermeira foi espancada por duas pessoas que reclamaram da demora no atendimento. “Quem a socorreu foi os próprios usuários”. Ainda segundo a Cleide, os médicos que sofrem agressão pedem exoneração e os profissionais sempre pedem transferência do local de trabalho”, explica.
Outro Lado. Durante todo o dia nossa equipe acompanhou a rotina da UPA Nordeste em paralisação. Terezinha Marcia Pinto, 71, chegou para ser consultada, mas não pode ser atendida. “Não dormi nesta noite, eu caí na rua e estou com fortes dores pelo corpo. Como eu fiz raio x e não tive fratura, eles me liberaram. Disseram não ser urgente. Nem medicamento me deram, agora é procurar outro lugar para ser atendida”, disse. O neto de 8 meses da dona de Casa, Fátima Castro, 69, chorava e tossia muito enquanto a mãe, Sabrina Santana de 16 anos conversava com o atendente da UPA. “Meu filho está gripado, tossindo muito, a médica nem colocou a mão nele. Falaram que não é grave e que não preciso me preocupar. Acho que há limite para tudo, menos para negar atendimento a um doente”, critica Sabrina.
 A dona de casa, Queila Amaral Ribeiro, 60, está com muita dor devido a artrose. Ela anda com ajuda de muletas. Também não foi atendida na UPA Nordeste. “Estou morrendo de dor, me falaram para voltar amanhã, o jeito é voltar para casa e continuar sofrendo”, disse. Viviane Aparecida Ribeiro, 35, amiga de Queila e cobradora de ônibus, está afastada do trabalho por causa da depressão. “Além da tristeza profunda, eu cai de uma escada e feri meu braço, estou com muita dor e não fui medicada, agora é procurar outro centro”, disse.
FONTE: O TEMPO
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