Cachorro, lual e pinga italiana, uma verdadeira aventura

A história de hoje é meio longa e sem mais delongas, perdoem o trocadilho, vamos a ela, porque o espaço é curto, o tempo urge. Colocarei de lado a estética textual para contar algo que talvez merecesse pelo menos dez vezes o espaço desta coluna.

Sempre tivemos umas ideias meio malucas na juventude. Sem dinheiro, mas com muita criatividade, nos divertíamos a beça. Um belo dia, sem nada para fazer, decidimos criar um lual. Mas como éramos, somos, desprovidos de dinheiro, o nosso lual não era como os da novela. Não tínhamos o mar, não tínhamos dançarinas de hula-hula, não tínhamos garçons e muito menos carro para nos levar a um lugar bonito. Mas tínhamos animação, vinho e Grapa, uma espécie de pinga italiana, que pelo amor de Deus, vai ser ruim no inferno.

De mochila nas costas, cobertores, porque desprovidos também de inteligência, resolvemos fazer lual em pleno inverno, partimos.

Éramos uns 15 companheiros e nos marcamos de encontrar na casa da minha mãe. Como íamos a pé decidimos encontrar algum descampado em um bairro rural próximo, mas não tínhamos a menor noção de onde encontraríamos o espaço.

O meu irmão tinha um Jipe. Era um Jipe bonito, vinho, mas que queimava óleo feito panela de pastelaria. Com dó daquela trupe ele ofereceu carona. Mais do que depressa nos aboletamos

no carro. Parecíamos saídos de filme da segunda guerra. Um monte de homem cheio de mochilas, alguns pendurados no pára choque outros no “Santo Antônio” e lá fomos nós, como um comando.

Como o velho Jipe não ia aguentar por muito tempo mesmo, o meu irmão nos deixou em um descampado logo depois da saída do da área urbana. Ao descermos, parecia que tínhamos fumado um cigarrinho diferente. Mas o vermelho dos nossos olhos não vinha do verde das plantas, mas da queima de óleo produzido pelo velho e bom Jipe.

Como tudo era diversão ficamos ali dançando e bebendo e o frio apertando. Lá pelas tantas, já não aguentando mais de frio, decidimos acender uma fogueira. Mas com o quê? Fósforos tínhamos, mas papel, álcool nada.

A solução foi sacrificar a pinga italiana. Na verdade nem foi sacrifício, porque vou falar a verdade, vinho eles sabem fazer, mas a tal da Grapa é uma porcaria. Para nosso desespero ou sorte um copo da bebida foi suficiente para inflamar a lenha recolhida.

Com o calor do fogo e com o calor das bebidas começamos a nos divertir. O hoje Padre Aldair, com duas calças e uma balaclava, a popular touca ninja, era uma figura dançando “Macarena”.

E em meio ao vinho, fomos ficando quietos e sentamos em volta da fogueira para conversar. Quando de repente o Bruno, hoje empresário e dono da melhor academia da cidade gritou:

– Olha o cachorro. Está vindo para cá pegar a gente. Um “cepa” de um cachorro preto.

Imagine, caro leitor, mais de uma dezena de caras bêbados correndo com cobertores pelo mato a fora. Eu, como quem me conhece já sabe, fui ficando para trás e comecei a querer chorar; porque o cachorro ia me pegar. Mais bêbado do que solidário o Bruno também foi ficando para trás. De repente juntou-se a nós o Fabrício, que até aquela corrida não estava no grupo, porque namorava e ficou de encontrar conosco só depois de deixar namorada em casa. De jaqueta preta, ele perguntou:

– Cadê o cachorro? Cadê o cachorro? – repetiu correndo desabaladamente.

Instantaneamente o Bruno parou. Olhou para ele com fúria e respondeu:

– O cachorro era você. Vi você com essa jaqueta subindo e achei que era um cachorro.

Os três mosqueteiros desataram a rir. O difícil foi juntar a galera novamente. Tinha gente em cima de árvore, pedra, escondida por todos os lados.

Pelo menos a corrida serviu para esquentar e graças a ela e @##$$%$%%$ da pinga italiana conseguimos cumprir a promessa de ficar a noite inteira no lual.

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